domingo, 8 de novembro de 2009

ENADE 2009





Hoje fizemos o ENADE. Combinei de me encontrar logo cedo com a Maithe e fomos ao shopping Tatuapé almoçar. Chegando à tal escola aonde fomos designados, a galera Anhembi lá estava em peso. Devia haver outros cursos, mas gastronomia parecia imperar; qualquer pessoa com quem se trocasse verbo, falava em comida, restaurante e fadiga...rs...o de sempre!

Excetuando as questões de nível específico, a prova foi até que razoável. Pudera! Logo após exaustivas 4 palestras sobre o 'incidente', quando fomos preparados a falar e muito bem do curso, nao podíamos esperar nada diferente.

Assim que terminei, tomei meu rumo. No caminho para casa, fui recapitulando algumas das questões, e logo me veio à mente um ponto tomado pelo professor Luiz Araujo, se o curso nos fornecia ferramentas para compreender a realidade social brasileira. De fato, ainda que não possamos nos gabar disso, de termos  esse olhar sociológico, vale lembrar, a prova tinha questões não menos importantes em peso. Então, se não temos esta compreensão por que cargas d'água ela permanece sendo estimulada, através do ENADE, das mídias, da Nutrição moderna? Será hipocrisia nossa, uma face que negamos ver? Será que o empratado é sempre belo e colorido, sem que a faca seja torta, a cerâmica quebrada?

Quando nos perguntaram qual a razão do ENADE intervir no curso, pensei em quanta falta nos fazia um olhar mais profundo à realidade brasileira. É bem certo que porcionar bifes e confeitar bolos não mostra o enorme abismo que aqui se estende entre ricos e pobres; contudo, quando se trata de desperdício, coleta seletiva e tantos outros temas relacionados à sustentabilidade, levamos a culpa na carteirinha. Esta sombra entre o glamour e os conflitos sociais, nós a representamos através do que é mais básico e necessário a todo ser humano: a comida

Mas se isso nos assusta, a gastronomia vai muito além, explorando o exagero e o absurdo. Quantos restauranteurs lucram enormes cifras em cima de malditas espumas vazias de manga? Em culturas como a nossa, de herança latino-americana e influência estrangeira, a ambiguidade no termo torna a situação ainda mais discutível: pois se de um lado a gastronomia não alcança os meios de comunicação, se expondo a todas as classes sociais; por outro, assim deve permanecer, à custa de perder sua conotação junto à luxúria.

Longe de mim cuspir esta água que bebo, mas se vamos difundir esta cultura ao país e o mundo, uma consciência se faz necessária. Mais do que isso, e como dizem muitos pensadores da modernidade, nos falta colocar as idéias em prática. E isso, meus amigos, está muito bem ligado à nossa formação de valores.

Se o aluno tem ou não o conteúdo para realizar esta e tantas outras provas da vida, é fato que educação e caráter se adquire em casa e na vida. Falando nisso, onde é que foram parar as antigas formas de se inflar o caráter, a ética e moral, como se costumava fazer nas milenares culturas grega e romana? A esta altura, quantos devem estar rindo...Ora, hoje em dia, falar em ética e moral é tanto ou mais surreal do que mencionar a boa e velha honestidade, talvez uma vaga lembrança da época em que nossos pais e avós eram obrigados a estudar filosofia e francês no colégio, entoar o hino todo santo dia pela manhã.

Pobre ENADE e govero que se importam com o desenvolvimento do sistema educacional, que imprimiram a prova em cores! Quantos zombaram dessa avaliação, fizeram-na com desdém ou deixaram a prova com inúmeras reclamações, perdi as contas! Se a corrupção ainda impera, o marasmo e conformismo...a prova nada tem a ver com isso!

No setor de gastronomia, o empregador, infelizmente ainda dá muito valor ao peão, que pouco tem em conhecimento e qualificação, mas muito pelo trabalho mal remunerado. Essa situação, já ouvi dizer, nao se diferencia nem ao menos nas nações mais desenvolvidas. Muito de encontro, me parece estar esse jovem da modernidade, recém saído dos fornos nos anos 90, julgando tudo pronto e indispensável, como um celular e MP3... indolente, individualista, apático, apolítico!

Parece-me que o ENADE vai mostrar esta outra face, a que se oculta por trás dos rostos, do corpo discente e docente. Mostrar um aluno que pode muito bem saber o tamanho de um maldito brunoise, mas pouco tem a dizer sobre o mundo e suas trasformações. Vai mostrar um professor que também é a reprodução deste sistema falido; que ora nos atende, ora nos vira o rosto, dada a glamourização a que se prende na cultura da arte gastronômica... Pode muito bem vir a picar cebola  melhor do que nós, mas não tem este mesmo apelo pela era da informação, nosso acesso indiscutível à internet e os meios de comuicação de forma tão avassaladora quanto foi para nossa geração.

Enfim, se a nota de corte vai ou não prejudicar os cursos que prestaram o exame, o certo é que o país está mudando aos poucos, demandando níveis de qualidade que, infelizmente, ainda são um reflexo do que está acontecendo no exterior. Essa é a fórmula pós-64 e assim ainda será por muito tempo. A nós então talvez caiba o grande papel de digerir aos poucos uma série de realidades que vão se sobrepondo. Um Rio de Janeiro, palco de mortes e tiroteiros enquanto um dos maiores exportadores de idealismo em novelas e olimpíadas.

Lembrar que fechar os olhos é o mesmo que esquecer, simular uma realidade de falso conforto, negar a si mesmo sem que se dê conta. 'Brasileiro não desiste nunca!' Talvez seja hora de colocar o velho bordão estigmatizador de lado e encarar os fatos... lembrar que, muito embora tenhamos todos nossos desejos e capacidades individuais, que muitos de nós tenham luz e queiram fazer bem ao mundo, infelizmente ainda há muito mal e erro nesta Terra, pessoas atropelando umas às outras, dispostas a tudo por dinheiro. E não me canso de dizer, ainda que seja esta uma sociedade por e pelo consumo, é emergencial, temos de pôr a cabeça no lugar!



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